segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Miruna Genoino: “Peço que a sociedade se informe sobre meu pai”
No começo da tarde de domingo, fui procurado por amigos da família de José Genoino. Pediram-me ajuda para divulgar um drama humanitário que vai se formando por ação da prisão intempestiva dos réus do julgamento do mensalão.
A família do ex-presidente do PT teme por sua vida e, conforme Paulo Henrique matéria do jornalista Amorim em seu blog, um laudo médico apoia tal temor.
De posse dos telefones de Rioko e Miruna – respectivamente, esposa e filha de Genoino – escolho a filha, julgando que estaria, talvez, menos abalada do que a mãe. Ledo engano. Estava muito abalada, mas, assim mesmo, falou sobre a saúde do pai e mandou um recado à sociedade.
Miruna conversou comigo aos prantos, arrastando-me para o seu estado de espírito, o que me fez terminar a entrevista igualmente abalado. Mas falou muito bem. A professora paulista de 32 anos é uma moça de mente ágil e, apesar da emoção, conseguiu exprimir com clareza do que seu pai, sua família e seus amigos mais precisam neste momento.
Segue, abaixo, a transcrição da entrevista com Miruna Genoino.
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Blog da Cidadania – A imprensa está repercutindo o estado de saúde do seu pai, de que seria delicado e ele não estaria sendo mantido em boas condições, o que poderia gerar risco para a saúde dele. O que você pode dizer sobre isso?
Miruna Genoino – No dia 24 de julho, meu pai contraiu a doença mais grave da cardiologia, uma dissecção da aorta, e teve que sofrer uma cirurgia de 8 horas, da qual tinha 10% de chance de sobreviver, mas ele sobreviveu porque é um guerreiro. Em seguida, porém, ele sofreu um micro AVC.
Meu pai está tomando cinco medicamentos diferentes em dois horários do dia. Até então, ele não tinha entrado em nenhum avião. O voo o fez passar mal, talvez a pressão da cabine. A médica que o acompanha nos informou que alguém que passou por tudo isso não poderia estar sendo submetido a tal pressão. Meu pai deveria ser hospitalizado.
Ele viajou ontem de manhã a Brasília e às duas horas da manhã deste domingo ainda não estava acomodado.
Estamos com uma grande preocupação com a saúde dele; é a nossa maior preocupação, agora. A nossa luta é para provar a inocência do meu pai, mas, neste momento, a grande preocupação é com a saúde dele.
Blog da Cidadania – Como está o emocional da sua família?
Miruna Genoino – A gente está num momento muito, muito difícil. O meu pai, antes de sair de casa para ser preso, nos disse que já tinha ficado confinado muito tempo em cela forte [durante a ditadura] e que estava preparado para isso.
Ele tem dois netos, os meus filhos, e eles estão muito assustados…
Blog da Cidadania – As crianças estão com vocês aí em Brasília?
Miruna Genoino – Eles ficaram em São Paulo.
Mas ele ter sido transferido para Brasília ainda nos causa um transtorno emocional ainda maior, porque a gente tem que ficar longe das crianças…
[Miruna chora]
É muito complicado o nosso estado emocional…
Blog da Cidadania – Miruna, você está abalada com tudo isso e, assim, não gostaria de prolongar esta entrevista. Mas como sabemos que você, com suas declarações, está ajudando a que as pessoas entendam que há seres humanos por trás de toda essa história, concluo perguntando o que a família de José Genoino tem a dizer à sociedade.
Miruna Genoino – Pedimos que a sociedade se informe. Qualquer pessoa que se informar de verdade, que não assumir o discurso da Rede Globo, do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja, de todos os grandes meios, ela vai saber que a única coisa que meu pai fez nesta vida foi colocar acima de tudo o ideal dele por justiça social…
[Miruna volta a chorar]
Ele saiu do sertão do Ceará para tentar melhorar a vida das pessoas. E a vida inteira ele se sacrificou em todos os sentidos porque essa sempre foi a única luta dele. Então, se as pessoas se informarem todo mundo vai saber o homem que ele é…
[Chora de novo]
Eu só peço isso….
[O pranto aumenta]
Que não assumam… O discurso… Dessa mídia… Que procurem saber a verdade, ouvir o outro lado, o que meu pai tem a dizer…
(…)
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Percebi, nesse ponto da conversa, que só me cabia deixar a família com sua dor e, em vez de continuar chorando do lado de cá enquanto essa menina da idade da minha filha maior chorava do lado de lá, vir escrever o clamor emocionado dessa família, que pode perder aquele que tanto ama.
Concluo, pois, exortando as autoridades judiciárias a que respeitem o direito, apenas o direito de Genoino.
Não pedimos, os parentes, amigos e até os admiradores dele que tenha regalias que ultrapassem os limites da lei, mas que não seja retaliado. Ele tem direito de receber cuidados médicos como qualquer cidadão privado de liberdade.
Genoino deveria estar num hospital. Levem-no para lá. Quem lhe nega esse direito a um tratamento digno responderá pelo que vier a lhe acontecer. Essa é a promessa de muitos que não se deixaram enganar pelos inimigos dele e que estarão muito atentos a cada minuto da vida desse homem, a partir de agora.
Fonte: http://www.blogdacidadania.com.br/2013/11/miruna-genoino-peco-que-a-sociedade-se-informe-sobre-meu-pai/
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
José Dirceu mesmo condenado seguirá sendo um líder e um mito da história política do Brasil
Um perseguido político.
José Dirceu é um importante líder político da história do Brasil. Um dos raros corajosos que arriscaram a própria vida contra os monstros da ditadura militar brasileira. Este homem é um digno ser humano, que lutou por democracia.
Dirceu deve sair deste processo, muito maior, no sentido de sua representatividade como um dirigente político de alta plumagem, competente e integro. Prendê-lo o tornará o grande mito da história política deste país.
O mito está sendo criado.
O que eles querem é a foto de José Dirceu algemado e indo para cadeia. Terão esse registro. Só que o povo que conhece a trajetória política deste homem o transformará no grande mito da história política do Brasil.
José Dirceu, você já enfrentou os mesmos monstros e torturadores. Os monstros de hoje vestem uma outra roupagem, são os mesmos trogloditas. Desumanos.
Siga enfrente com a firmeza de um grande guerreiro que você sempre foi e continua sendo. Levante as algemas e faça a foto que vai torná-lo o grande mito político do Brasil.
Sua importância estará nos anais de toda a história política deste país.
Você é um grande homem.
Um político excepcional.
Um líder.
Um mito.
Quem te conhece e sabe o que está acontecendo vai estar sempre ao seu lado.
Que Deus te proteja destes monstros que agora te perseguem.
Deus vai estar ao seu lado, como sempre esteve.
Dirceu guerreiro, do povo brasileiro.
Viva, viva José Dirceu.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
A atuação dos médicos cubanos em Pernambuco
DANIEL CARVALHO
ENVIADO ESPECIAL AO INTERIOR DE PERNAMBUCO
A demanda de médicos no interior do país é gigantesca e a cubana Teresa Rosales, 47, se surpreendeu com a recepção de seus pacientes em Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano.
"Eles [pacientes] ficam de joelhos no chão, agradecendo a Deus. Dão beijos", afirma a médica, que atendeu 231 pessoas neste primeiro mês de trabalho dos profissionais que vieram para o Brasil pelo programa Mais Médicos, do governo federal.
O posto de saúde em que Teresa trabalha fica no distrito de São Domingos, região pobre e castigada pela seca.
Durante os últimos quatro anos, o posto não tinha o básico: médicos. Até o final de setembro, quando Teresa chegou ao distrito, quem andava quilômetros de estrada de barro até chegar à unidade de saúde sempre voltava para casa sem atendimento.
A situação se repetia a algumas ruas de lá, no posto onde o marido de Teresa, Alberto Vicente, 43, começou a trabalhar em outubro.
Daniel Carvalho/Folhapress
O médico cubano Nelson Lopez em Frei Miguelinho (PE)
O médico cubano Nelson Lopez em Frei Miguelinho (PE)
"Foi Deus quem mandou esse homem. Era uma dificuldade, chegou a fechar o posto por falta de médico", disse a aposentada Isabel Rocha, 80, que agora controla o diabetes sob orientação médica.
Alberto e Teresa integram um grupo de 400 cubanos que chegaram pelo Mais Médicos na primeira etapa do programa. Outros 2.000 dos seus conterrâneos começaram a trabalhar no dia 4 de novembro, 76 deles em São Paulo.
Uma terceira leva de 3.000 médicos da ilha chegou esta semana a cinco capitais. A previsão é que eles comecem a trabalhar em dezembro.
Eles têm alimentação e moradia fornecidas pelas prefeituras e recebem por mês entre R$ 800 e R$ 900 do governo federal. O restante da bolsa de R$ 10 mil mensais é distribuído entre parentes dos médicos e o governo cubano.
ATENDIMENTO
Alheia à polêmica salarial, a população lota os postos que há um mês estavam vazios, já que não havia médicos.
A agricultora Maria Inácia Silva, 69, havia visto um médico pela última vez em 2005.
Ela se disse impressionada pela forma como foi atendida pelo cubano Nelson Lopez, 44, novo médico do povoado de Capivara, em Frei Miguelinho (PE).
A diferença no atendimento está desde a organização dos móveis: a cadeira do paciente fica ao lado da mesa do médico, para que o móvel não seja uma barreira entre eles.
"Gostamos de examinar o paciente, dedicar um tempo a ele, considerá-lo gente", disse Lopez.
As filas e as consultas são longas. Ainda estava escuro quando Maria Inácia Silva chegou ao posto e ela só foi atendida na hora do almoço.
Passou cerca de meia hora no consultório e finalmente soube que as dores que sente se devem ao reumatismo.
"Ele é ótimo médico, apesar de estrangeiro. Em 69 anos, nunca vi um médico tão bom", disse Maria Inácia.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
A indignação tardia de Miriam Leitão
Leandro Fortes, no Facebook
O artigo de Míriam Leitão contra Reinaldo Azevedo está atrasado, exatamente, 10 anos.
Os rosnados e latidos do blogueiro da Veja, recém contratado como colunista da Folha de S.Paulo, só suscitaram indignação na colega de O Globo, agora, porque a estrutura de mídia (e de poder) ao qual ambos pertencem está desmoralizada e prestes a desmoronar.
Na última década, a direita hidrófoba latiu, rosnou e babou do mesmo jeito, inclusive dentro das Organizações Globo, mas Míriam, profissional zelosa em anunciar, toda manhã, o fim do mundo patrocinado pelo PT, manteve-se calada. Conivente.
Jornalista elegante e de belo texto, não duvido que há muito Míriam Leitão despreze Reinaldo Azevedo, cujo único talento, a bajulação dos ricos, infelizmente está agregado à absoluta falta de talento para escrever coisas minimamente inteligíveis.
Para ela, como para muitos da direita brasileira, era como um psicopata domesticado que, enquanto se mantivesse apenas no espaço radical da Veja, seria de boa valia para o serviço.
Fora dessa perspectiva, Míriam deve ter sempre olhado para o texto do colega de luta liberal com o devido desprezo que qualquer jornalista mediano tem pela má escrita, sobretudo quando se trata de um amontoado de clichês retirados de velhas apostilas da ESG enfeitado por espasmos de falsa erudição roubada ao Google e a orelhas de clássicos da literatura universal.
Agora que o cão raivoso deixou o canil da TFP e veio latir mais perto, no mesmo espaço singular do triste colunismo da mídia nacional, Míriam Leitão decidiu, finalmente, se pronunciar.
Tarde demais.
Vão todos - mírians, reinaldos, jabores, magnolis e gullares - afundar juntos e abraçados na mesma lama em que se meteram por conta própria.
Aqui, ótimo artigo de Paulo Nogueira sobre o mesmo tema.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Argentina encontra 1500 arquivos secretos da ditadura com “lista negra de artistas”
Mercedes Sosa e Julio Cortázar fazem parte do grupo de “perigosos ao regime”; documentos também mostram famílias à procura de filhos desaparecidos
Por Opera Mundi
A Argentina divulgou nesta segunda-feira (05/11) que foram encontrados arquivos secretos da ditadura militar no país (1976-1983). Chamada de “lista negra”, os documentos apontam artistas e personalidades da sociedade argentina como “perigosos ao regime”. Julio Cortázar, Héctor Alterio e Mercedes Sosa – uma das cantoras mais influentes do século XX – foram vigiados pelo governo. No total, são 1500 documentos inéditos, 280 deles com as transcrições de gravações das reuniões da Junta Militar que governou o país entre 1976 e 1983.
O ministro da Defesa, Agustín Rossi, afirma que a documentação foi encontrada na semana passada acidentalmente durante a limpeza do edifício Condor, em Buenos Aires, onde funcionam dependências da Força Aérea argentina. “Encontramos seis pastas originais das atas da junta militar, datadas de 24 de março de 1976 até 10 de dezembro de 1983. São todas as atas secretas da junta militar”, disse Rossi.
Segundo informações da Agência Efe, o ministro detalhou que os documentos estavam agrupados em 1.500 pastas para guardar papéis dentro de duas caixas fortes e dois armários. Rossi destacou que é a primeira vez que se tem acesso a material deste tipo, que informa desde o dia do golpe militar até o dia em que a Argentina retornou à democracia, há trinta anos.
Entre os documentos estão todas as atas secretas das juntas militares, um total de 280 originais nos quais os generais explanam suas posições sobre diferentes assuntos. O ministro ressaltou que a documentação conta com a “vantagem” de estar “ordenada, classificada e até ter um índice temático”.
Também foram encontrados três livros de recepção, onde estavam as comunicações para as forças militares, como pedidos de famílias que queriam saber do paradeiro de seus filhos desaparecidos.
Fonte: http://revistaforum.com.br/blog/2013/11/argentina-encontra-1500-arquivos-secretos-da-ditadura-com-lista-negra-de-artistas/
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
"Bala de borracha apaga a democracia"
Em frente à casa do governador Geraldo Alckmin, manifestantes protestaram contra a volta do uso de "armamentos menos letais" em protestos
Manifestantes promoveram concurso de “tiro ao olho” em frente à residência do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, neste domingo 3. Vestindo máscaras com o rosto do tucano, eles espirraram tinta vermelha sobre outros manifestantes que tinham alvos em seus olhos e carregavam uma faixa escrito "bala de borracha apaga a democracia. Proíbe, Alckmin."
O grupo, identificado como "defensores dos direitos humanos" e responsável pelo tumblr Geraldo Borracheiro, protesta contra a volta do uso de armas “menos letais” para reprimir protestos. Os armamentos chegaram a ser proibidos após os excessos da polícia no mês de junho, mas seu uso voltou a ser corriqueiro durante o mês de outubro.
“Entre as consequências já registradas, há uma morte e centenas de feridos com marcas de cassetete e outros ferimentos pelo corpo, gerando inclusive a perda de visão,” diz o manifesto entregue pelo grupo. Eles lembram, entre outros casos, da repressão ao protestos de moradores da comunidade Estaiadinha, zona norte de São Paulo, na última sexta-feira 1.
Segundo os funcionários do prédio, o governador não se encontrava no local. Os manifestantes deixaram uma carta direcionada a Alckmin. Leia abaixo a íntegra dela:
Sr. Geraldo Alckmin
É inaceitável o uso de armamentos ditos “menos letais” em operações da Polícia Militar.
No Estado brasileiro o padrão da brutalidade na atuação das instituições públicas é um traço característico e as intervenções institucionais são insuficientes para promover mudanças neste padrão de atuação. O aumento de 106% no número de abordagens excessivas registradas na ouvidoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo no primeiro semestre de 2013 evidencia este fato.
Entre muitos outros, o uso abusivo da força policial durante o governo do Sr. pode ser lembrado em casos como:
- Massacre do Pinheirinho (2012) – 1.500 famílias foram expulsas por efetivo de 2 mil policiais fortemente armados, além de um número ignorado de Guardas Civis, descumprindo a suspensão de reintegração de posse do terreno;
- Retenção de 29 pessoas por quase dez horas na central de flagrantes da Polícia Civil no Grajaú para dispersar a manifestação por melhorias no transporte público no Extremo Sul da cidade (outubro, 2013);
- Morte de senhora de 66 anos com parada cardiorespiratória em decorrência da aspiração de gás lacrimogêneo em manifestação no centro de São Paulo (agosto, 2013).
- Perda da visão do fotojornalista Sérgio Silva, da agência Futura Press atingido por bala de borracha disparada pela Polícia Militar em Junho de 2013.
Por isso pedimos que repita e aprofunde a decisão já anunciada pelo Sr. no dia 17 de junho de 2013: proíba o uso de armas menos letais em operações da Polícia Militar (a saber, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, taser, spray de pimenta entre outras). No caso do gás lacrimogêneo, a Convenção sobre Armas Químicas, assinada por 165 países e ratificada pelo Brasil, proíbe desde 1993 seu uso em guerras.
A especialista Marisa Fefferman, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, condena o uso de armas menos letais na democracia:
“Numa democracia, a priori, não se pode matar. Então eis a bala de borracha, que ressignifica o estado repressor, instala o medo nos movimentos sociais, escamoteia a violência contra aqueles que ousam desafiar alguns padrões estabelecidos.”
Não fique para a história como o governador repressor.
Atenciosamente,
Defensores dos Direitos Humanos
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/bala-de-borracha-apaga-a-democracia-8357.html
domingo, 3 de novembro de 2013
Miriam Leitão: Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo emburrecem o país
“Pensamentos rasteiros, argumentos desqualificadores, ofensas pessoais, de nada servem. São lixo, mas muito rentável para quem o produz”, afirmou a jornalista
A jornalista Miriam Leitão, colunista do Globo, publicou um importante artigo neste domingo sobre a “miséria do debate” brasileiro.
No texto, ela bate duro em dois representantes da “direita hidrófoba” brasileira: o colunista Reinaldo Azevedo, de Veja e Folha, e o economista Rodrigo Constantino, que tem colunas em Veja e no próprio Globo.
“Os epítetos ‘petralha’ e ‘privataria’ se igualam na estupidez reducionista. São ofensas desqualificadoras que nada acrescentam ao debate”, diz a jornalista.
Dizendo-se alvo dos dois lados, de quem a critica pela esquerda e pela direita, Miriam passou a tratar então de Reinaldo Azevedo. “Recentemente, Suzana Singer foi muito feliz ao definir como um ‘rottweiler’ o recém-contratado pela Folha de S. Paulo (…) ele já rosnou para mim várias vezes, depois se cansou como fazem os que ladram atrás das caravanas”.
Miriam resgatou ainda um texto revelador, em que Reinaldo cobrava dela um pedido de desculpas ao senador Demóstenes Torres (leia aqui).
Depois de tratar de Reinaldo, Miriam saltou para Rodrigo Constantino, o mais caricato personagem da nova direita brasileira, que, segundo a jornalista do Globo, produz “indigências mentais”. Miriam se refere à resposta agressiva que recebeu quando defendeu a nomeação de Janet Yellen para o Federal Reserve, o banco central americano. “O que importa o que a liderança do Fed tem entre as pernas?”, perguntou Constantino em Veja (leia aqui).
Miriam conclui seu texto afirmando que tais tipos de desqualificação são apenas “lixo”. Nada mais.
Leia, abaixo, seu artigo:
Miséria do debate – MIRIAM LEITÃO
O Brasil não está ficando burro. Mas parece, pela indigência de certos debatedores que transformaram a ofensa e as agressões espetaculosas em argumentos. Por falta de argumentos. Esses seres surgem na suposta esquerda, muito bem patrocinada pelos anúncios de estatais, ou na direita hidrófoba que ganha cada vez mais espaço nos grandes jornais.
É tão falso achar que todo o mal está no PT quanto o pensamento que demoniza o PSDB. O PT tem defeitos que ficaram mais evidentes depois de dez anos de poder, mas adotou políticas sociais que ajudam o país a atenuar velhas perversidades. O PSDB não é neoliberal, basta entender o que a expressão significa para concluir isso.
A ele, o Brasil deve a estabilização e conquistas institucionais inegáveis. A privatização teve defeitos pontuais, mas, no geral, permitiu progressos consideráveis no país e é uma política vencedora, tanto que continuou sendo usada pelo governo petista. O PT não se resume ao mensalão, ainda que as tramas de alguns de seus dirigentes tenham que ser punidas para haver alguma chance na luta contra a corrupção. Um dos grandes ganhos do governo do Partido dos Trabalhadores foi mirar no ataque à pobreza e à pobreza extrema.
Os epítetos “petralhas” e “privataria” se igualam na estupidez reducionista. São ofensas desqualificadoras que nada acrescentam ao debate. São maniqueísmos que não veem nuances e complexidades. São emburrecedores, mas rendem aos seus inventores a notoriedade que buscam. Ou algo bem mais sonante. Tenho sido alvo dos dois lados e, em geral, eu os ignoro por dois motivos: o que dizem não é instigante o suficiente para merecer resposta e acho que jornalismo é aquilo que a gente faz para os leitores, ouvintes, telespectadores e não para o outro jornalista. Ou protojornalista. Desta vez, abrirei uma exceção, apenas para ilustrar nossa conversa.
Recentemente, Suzana Singer foi muito feliz ao definir como “rottweiller” um recém-contratado pela “Folha de S.Paulo” para escrever uma coluna semanal. A ombudsman usou essa expressão forte porque o jornalista em questão escolheu esse estilo. Ele já rosnou para mim várias vezes, depois se cansou, como fazem os que ladram atrás das caravanas.
Certa vez, escreveu uma coluna em que concluía: “Desculpe-se com o senador, Miriam”. O senador ao qual eu devia um pedido de desculpas, na opinião dele, era Demóstenes Torres. Não costumo ler indigências mentais, porque há sempre muita leitura relevante para escolher, mas outro dia uma amiga me enviou o texto de um desses articulistas que buscam a fama. Ele escreveu contra uma coluna em que eu comemorava o fato de que, um século depois de criado, o Fed terá uma mulher no comando.
Além de exibir um constrangedor desconhecimento do pensamento econômico contemporâneo, ele escreveu uma grosseria: “O que importa o que a liderança do Fed tem entre as pernas?” Mostrou que nada tem na cabeça. Não acho que sou importante a ponto de ser tema de artigos. Cito esses casos apenas para ilustrar o que me incomoda: o debate tem emburrecido no Brasil. Bom é quando os jornalistas divergem e ficam no campo das ideias: com dados, fatos e argumentos.
Isso ajuda o leitor a pensar, escolher, refutar, acrescentar, formar seu próprio pensamento, que pode ser equidistante dos dois lados. O que tem feito falta no Brasil é a contundência culta e a ironia fina. Uma boa polêmica sempre enriquece o debate. Mas pensamentos rasteiros, argumentos desqualificadores, ofensas pessoais, de nada servem. São lixo, mas muito rentável para quem o produz.
Fonte: http://revistaforum.com.br/blog/2013/11/miriam-leitao-rodrigo-constantino-e-reinaldo-azevedo-emburrecem-o-pais/
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